Vazio e cheio de tudo
Ando à beira do caos
Perdido em pensamentos tantos
Não ouço mais som
A cidade já acordou
Nem sei mais o que estou fazendo
Minha vida é só prantos
Distantes estão os encantos
e todos os meus alumbramentos
domingo, 21 de fevereiro de 2010
CONCLUSÃO
Todos os motivos pariculares pelos quais escrevemos podem ser explicados por uma razão geral: escrevemos para resolver problemas que a oralidade não consegue resolver.
sábado, 20 de fevereiro de 2010
INSONE
Depois do pranto
Doído de ausente
Hora do sono
Viro de lado
Viro do outro
A falta de frente
Saudade de quê?
Olhos de espanto
Acordar sem porquê
Diante do além
Dia de nuvem
Tudo de novo
Eu de repente
Aqui, sem ninguém
Doído de ausente
Hora do sono
Viro de lado
Viro do outro
A falta de frente
Saudade de quê?
Olhos de espanto
Acordar sem porquê
Diante do além
Dia de nuvem
Tudo de novo
Eu de repente
Aqui, sem ninguém
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010
Pratos limpos
Onze da manhã. Meus olhos maus se abrem frente ao espelho que reflete minha cara de sono. Sinto-me ainda zonzo e franzindo um pouco a testa consigo me ver devagar. Depois de ter visitado a pia, ponho-me a espiar pela janela da cozinha como sempre faço todas as manhãs ou quase tardes. Hoje o sol não nasceu para o dia. Meio uma dor cortante no peito, tenho vontade de ouvir música boa enquanto preparo o almoço. Afinal de contas, não é à toa que fico em casa nesse horário. Tem gente que precisa de mim aqui, que precisa de cuidados. Logo tenho uma pequena lembrança de algo parecido com “poetas para quê...” e fico no embalo de Bethânia, sol perfeito para essas quase tardes. É um dia depois de quarta e que ainda é cinza.
Quero fazer feijão que lembre aquele que ficou congelado por dias, porque minha mãe quem o fez e não queria que acabasse. E um arroz que lembre meu pai, soltinho e colorido. Ele gosta. Estou animado mesmo frente a indecisão do tempo insistindo fazer doer o que pulsa aqui dentro. Saudade dos tempos em que eu não precisava cozinhar, tudo vinha nas mãos. Já não é mais assim. Meu bem e minhas preciosidades estão chegando e preciso ser rápido.
Feijão no fogo, arroz quase pronto, passo aos vegetais. É bom ter variedades de verduras. São só sorrisos quando a comida está alegre, toda cheia de cor. E eu sinto que fiz minha parte. Eu escolhi ficar em casa e cozinhar. Assim sou mais útil. Nem sempre as pessoas entendem. Dizem que não posso ficar assim. Mas eu gosto de fazer e dizem que cozinho bem. Está quase pronto. Ouço mais uma faixa do cd. Alto, que é pra preencher toda a cozinha. “Hoje eu acordei o dia antes dele te acordar...” é o que ela canta pra mim. Um replay e canto de novo no meu jeito desafinado e rouco de cantar.
A saudade me faz deixar um minuto a cozinha e visito minh’alma a chorar. Está tudo tão escuro e pálido e frio e nublado e... e. Lágrimas perto do espelho, retorno. Lá vi um cara de olhos abertos vermelhecidos de sal. Como doeu. O cara era eu. A comida fica pronta e é aí então, depois que as panelas deixam seus barulhos e o rádio emudece, é aí que dou por mim.
Ali acordo de fato. Quanta comida feita. Quanto vazio na mesa. Entendo agora a dor que rolava e o silêncio que em mim estava. Ela, elas, ele, eles, ninguém há. No espelho vi quem é que precisava de mim, de quem é que eu precisava cuidar e para quem eu me alegrava em cozinhar cantarolando alto: para o meu bem. Estranho foi ver que acordo só horas depois, que percebo tudo tarde demais. O feijão, o arroz e tudo mais... quanta coisa.
Sem preciosidades, tarde acima, de novo retorno à cama, com meu grande vazio dentro e comida no fogão. Ligo o som. Agora sei de verdade o que tanto me dói. Aumento de novo a música que invade e alimenta esse meu abismo de poeira, cacos e solidão.
p.s. Eu devia ter suspeitado: “hoje o sol não quis o dia” e nem eu acordar.
Manhã sem sol.
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010
Incontrolável “Dom”
Quero um amor. Preciso de um amor igual ao de Ana. Um amor que seja belo. Ana é bela. Através de seus olhos verde-mar, viajo numa paz revoltante. Não sei quem sou sem Ana porque nela está reduzido todo o meu ser. Viver sem aquele olhar é o mesmo que estar no mundo sem nenhuma gota de sentido. Desde que a conheci, seu cabelo, sua pele, seu toque, tudo me leva a delirar de prazer, de emoção, de ciúme. Não consigo imaginar Ana retribuindo aos estímulos de outro homem como faz comigo. Eu morreria se soubesse, morreria se visse, estou morrendo por imaginar.
Consegui conquistá-la. Difícil não foi, pois sentia que ela também retribuía aos meus desejos. Ela me queria assim como eu sempre a quis. Todo meu existir já se baseava em vê-la caminhar pela praia todas as manhãs. Meu trabalho estava resumido em duas ou três horas, porque não conseguia mais pensar noutra coisa a não ser... a não ser ANA. Tomara conta dos meus sentidos de uma forma que eu nunca foi levado.
Eu nunca havia experimentado isso em três anos de relacionamento com Alice. Nunca! Alice me amava, mas eu não conseguia dizer mais que um “eu também” quando ela me falava repetidas vezes a frase que eu dissera a Ana em menos de um mês de romance. Além disso, Alice me desesperava, me sufocava. Queria saber de tudo, todo o momento. Onde eu estava, porque não compareci, quando é que volto... cobranças... nada além de muitas cobranças. Mas, gostava de conversar com ela, quando em sã consciência, esquecia de mim e falava das outras coisas. Quando era mais ela. Eu adorava a liberdade que ela foi perdendo aos poucos em mim. Por mim. Isso me fazia mal e já não éramos o mesmo casal. Nunca nos desentendemos na cama, ou no chão da sala... mas não é só disso que vive um homem e uma mulher. E eu descobri isto depois que reencontrei minhas esmeraldas.
Ana era uma mulher de cabelos escuros, volumosos estilo fera, soltos ao vento. Ah como ver esta imagem me fazia feliz. Feliz não, eu não conseguia me conter de tanta alegria, eu me preenchia com aquelas imagens. Ficava ainda mais linda quando voava pros meus braços, se acorrentava em mim e passava tempo me olhando. Olhos de pantera. Ferozes, impactantes, inocentes, lindos. Logo após toda essa dança de olhares, nossos estímulos não se continham. Vinha o beijo. Um, dois, centenas... A boca de Ana era grande, era torneada. Lábios grossos, vermelhos. Ardia, pulsava e me deixava louco de vontade. Ela tinha um jeito inexplicável de morder os lábios com um ou dois dentes que me fazia ir aos céus. Ela atiçava todas as minhas sensações. Muitas mulheres puderam ter-me nos braços, poucas me levaram até as nuvens. Nenhuma. Apenas Ana. Ao falar nos meus ouvidos que queria que eu fosse seu homem, seu macho, seu animal incontestável, e que ela seria minha mulher totalmente domada, inteiramente minha, por dentro e por fora, era neste momento que minhas pernas bambeavam por completo. Meu ser era invadido por uma força incontrolável. Uma mistura de auto-estima e poder. De carinho, amor e desejo. O que resistia em mim eram os braços que a contornavam e não tinham parada.
Num todo alvoroço de dar inveja a qualquer apaixonado, em poucos instantes nos víamos seminus ou totalmente, quando dava tempo. Quando o fogo deixava. Estávamos na cama, na mesa, no banheiro, no sofá... Éramos um. Corpo e alma indissolúveis. Eu a possuía com todo gosto e parecia encontrar seu íntimo, seu verdadeiro interior. Ela se doava inesquecivelmente.
Cada encontro nosso era festa. Era paixão, entrega e muito prazer. Encaixávamos perfeitamente. Em todos os sentidos. Ana adorava as minhas invenções, minhas fantasias que só tinha com ela, minha vontade explosiva, meu desejo contínuo e arrebatador de domínio. Sentia o corpo dela estremecer de prazer quando estávamos nos consumindo. Os movimentos pareciam sincronizados. Constantes e pausados, desconcertados e acelerados, ainda sim tinham ritmos próprios, eram harmônicos, selvagens, delicados, rudes... maravilhosos! Eu sentia o peso do corpo de Ana sobre minhas pernas, sobre meu objeto de dominação, sobre meu peito. A pressão de sua boca me fazia suspirar de desejo e me arrepiava todo de sentir sua respiração roçar junto a meu rosto. Suas mordidas em meu pescoço misturada à delicadeza com que se mexia eram extremamente fascinantes. Ela dançava sua melhor música em cima de mim. Eu era seu instrumento de uso. Ao mesmo tempo em que eu a possuía, era possuído também e só mais tarde pude perceber que eu fora mais dominado que pudesse pensar. Dentro de meu egocentrismo não enxergava o quanto eu estava apaixonado. O quão rendido estava, não só pelo encanto de Ana, mas pelo amor sem limite que eu pensava existir. Ela era minha e não podia nem sonhar com a hipótese de vê-la longe de mim.
Ana era dançarina e atriz. Adorava o que fazia e sentia-se realizada nos palcos. Eu também achava um máximo o trabalho dela, no começo. Com o passar dos dias, dos meses, estava tão envolvido, tão viciado nela que já não podia separar a mulher profissional, da mulher esposa. Queria exclusividade. Esperava retorno constante. A liberdade que tanto me fascinava se existisse em Alice, agora era repúdio em Ana. Não suportava vê-la saindo para se exibir para outras pessoas. Era seu trabalho, mas eu não controlava meu ciúme violento. Nunca encostei um só dedo em Ana, e nunca o faria, a não ser o encostar do prazer, do carinho, do amor. Jamais faria mal a Ana. Mesmo que traído fosse. Mas não teria coragem de maltratar quem me dera tanta emoção, tanto júbilo, tanta alegria.
Eu, engenheiro de uma firma de São Paulo. Mal tinha tempo para mim e de repente tudo muda de lugar. Minha profissão torna-se banal perto do que sinto por aquela mulher. Ela se tornou em pouco tempo meu bem e meu maior mal, meu início e meu fim.
Fruto de um tesão incontrolável, de um desejo insaciável, nasce Antônio que é elo, que é ímã, que é ponte que nos distancia. Antônio é doce. Não tem culpa de nada, inocente não sabe o que fez. Mas ele é marco inicial de nosso elo eterno e de nosso ponto final. Estou atordoado pela idéia de ser pai, pelo sonho de estar com Ana, pelo desprazer em dividi-la, pelo temor de perdê-la. Eu não sabia, mas naquele instante o cronômetro fora disparado e em contagem regressiva estava perdendo Ana. Eu não conseguia engolir mais o trabalho dela há tempos, ainda mais por ela trabalhar com meu melhor amigo, Fred. A intimidade que ela estabelecera com ele se tornava mais e mais forte a cada dia. E ainda tinha que conviver com aquela insegurança de tê-lo em casa, pois era padrinho de Antônio. Gostava imensamente dele e ele de seu afilhado. Na verdade, ele era mais pai que padrinho. Sentia um prazer imensurável ao estar com o menino, e eu me torturava cada vez que via aquelas cenas de carinho, de envolvimento. Os dois pareciam estar ligados por um eixo comum: Ana... a minha Ana.
Talvez já não fosse “a minha” há séculos, mas eu sempre me cegava com relação a isso. No entanto chegou num ponto em que eu não separava mais onde eu começava e onde tinha fim sem Ana. Não existia a possibilidade de viver sem sua presença. Estava bêbado, completamente inebriado. Não enxergava nem Antônio. Só a minha deusa e sua relação profissional com Fred. E aquela outra relação paternal de Fred com Antônio.
Estava confuso, perturbado. Qualquer homem ficaria ao ver tanta cumplicidade escancarada. Tudo me fazia crer que éramos um triângulo. O que se complicava pela existência de Antônio. Dúvidas, apesar de nunca ter tido motivos concretos. Eu estava com ciúmes do meu pensamento. Escravo da minha mente fantasiosa, fruto de um amor doentio. Minha doença era Ana. Era seu olhar e seu corpo. Não tinha cura.
“Já não tenho motivos para continuar sendo alvo de suas suspeitas sem escrúpulos.
Suas acusações me fazem mal. Estou definhando a cada dia com este seu ciúme maldito e não consigo mais viver sufocada. Desconfiança é a palavra que resume e que acaba com nosso romance. Você foi o melhor capítulo da minha história. Amei como nunca havia amado ninguém. Você me ensinou a ser sincera, a ser companheira, a ser sua. E eu fui. Sinto imensamente por tudo o que poderíamos juntos, ainda ter vivido. Mas assim não dá. Eu não tenho forças. Você me tirou de mim e agora preciso me reencontrar. Não sei se conseguirei obter êxito, não sei como vai ser minha vida sem seu abraço, sem seu rosto, sem suas flores, sem seu cheiro, sem o seu gosto. Não sei como vou viver sem nosso desejo incontrolável, sem nossa imensa vontade. De minha parte digo que continuarei apaixonada, eternamente. Mas tenho certeza que se ao seu lado continuar... e com você, assim, tão diferente de quando nos reencontramos... Eu morrerei. Não aprendi a conviver com o novo Dom que você construiu.
Você, Dom, destruiu tudo que havia de melhor entre nós. Agora não me resta outra alternativa. Deixo-lhe. Amargando de desgosto, mas assim será melhor para ambos e para nosso filho, Antônio.
Eu te amo,
ANA
Choro por não ter feito nada. Eu não podia. Nada podia ter sido feito. Meu carro já estava há alguns metros, mas não pude evitar. Choro de desespero. Luz, freios, o choque.
Meu passado se foi. Minha vida acabou naquele instante. Mas ele não quis me poupar do sofrimento. Deixou de presente a dúvida e a dor de conviver com ela. A medida que Antônio cresce, minha angústia aumenta. Não tenho como me livrar do sentimento de culpa.
O que me fez deixar Alice, me uniu e me separou de Ana. Hoje entendo porque Alice agia daquela forma e sofro por não ter agido diferente com Ana. Minha doença a levou para todo sempre.
Queria o amor de Ana novamente. Hoje sou culpa. Sou ressentimento.
Vivo dos restos de Ana. Cuido de Antônio.
Hoje? Não sou mais eu.
Quero um amor. Preciso de um amor igual ao de Ana. Um amor que seja belo. Ana é bela. Através de seus olhos verde-mar, viajo numa paz revoltante. Não sei quem sou sem Ana porque nela está reduzido todo o meu ser. Viver sem aquele olhar é o mesmo que estar no mundo sem nenhuma gota de sentido. Desde que a conheci, seu cabelo, sua pele, seu toque, tudo me leva a delirar de prazer, de emoção, de ciúme. Não consigo imaginar Ana retribuindo aos estímulos de outro homem como faz comigo. Eu morreria se soubesse, morreria se visse, estou morrendo por imaginar.
Consegui conquistá-la. Difícil não foi, pois sentia que ela também retribuía aos meus desejos. Ela me queria assim como eu sempre a quis. Todo meu existir já se baseava em vê-la caminhar pela praia todas as manhãs. Meu trabalho estava resumido em duas ou três horas, porque não conseguia mais pensar noutra coisa a não ser... a não ser ANA. Tomara conta dos meus sentidos de uma forma que eu nunca foi levado.
Eu nunca havia experimentado isso em três anos de relacionamento com Alice. Nunca! Alice me amava, mas eu não conseguia dizer mais que um “eu também” quando ela me falava repetidas vezes a frase que eu dissera a Ana em menos de um mês de romance. Além disso, Alice me desesperava, me sufocava. Queria saber de tudo, todo o momento. Onde eu estava, porque não compareci, quando é que volto... cobranças... nada além de muitas cobranças. Mas, gostava de conversar com ela, quando em sã consciência, esquecia de mim e falava das outras coisas. Quando era mais ela. Eu adorava a liberdade que ela foi perdendo aos poucos em mim. Por mim. Isso me fazia mal e já não éramos o mesmo casal. Nunca nos desentendemos na cama, ou no chão da sala... mas não é só disso que vive um homem e uma mulher. E eu descobri isto depois que reencontrei minhas esmeraldas.
Ana era uma mulher de cabelos escuros, volumosos estilo fera, soltos ao vento. Ah como ver esta imagem me fazia feliz. Feliz não, eu não conseguia me conter de tanta alegria, eu me preenchia com aquelas imagens. Ficava ainda mais linda quando voava pros meus braços, se acorrentava em mim e passava tempo me olhando. Olhos de pantera. Ferozes, impactantes, inocentes, lindos. Logo após toda essa dança de olhares, nossos estímulos não se continham. Vinha o beijo. Um, dois, centenas... A boca de Ana era grande, era torneada. Lábios grossos, vermelhos. Ardia, pulsava e me deixava louco de vontade. Ela tinha um jeito inexplicável de morder os lábios com um ou dois dentes que me fazia ir aos céus. Ela atiçava todas as minhas sensações. Muitas mulheres puderam ter-me nos braços, poucas me levaram até as nuvens. Nenhuma. Apenas Ana. Ao falar nos meus ouvidos que queria que eu fosse seu homem, seu macho, seu animal incontestável, e que ela seria minha mulher totalmente domada, inteiramente minha, por dentro e por fora, era neste momento que minhas pernas bambeavam por completo. Meu ser era invadido por uma força incontrolável. Uma mistura de auto-estima e poder. De carinho, amor e desejo. O que resistia em mim eram os braços que a contornavam e não tinham parada.
Num todo alvoroço de dar inveja a qualquer apaixonado, em poucos instantes nos víamos seminus ou totalmente, quando dava tempo. Quando o fogo deixava. Estávamos na cama, na mesa, no banheiro, no sofá... Éramos um. Corpo e alma indissolúveis. Eu a possuía com todo gosto e parecia encontrar seu íntimo, seu verdadeiro interior. Ela se doava inesquecivelmente.
Cada encontro nosso era festa. Era paixão, entrega e muito prazer. Encaixávamos perfeitamente. Em todos os sentidos. Ana adorava as minhas invenções, minhas fantasias que só tinha com ela, minha vontade explosiva, meu desejo contínuo e arrebatador de domínio. Sentia o corpo dela estremecer de prazer quando estávamos nos consumindo. Os movimentos pareciam sincronizados. Constantes e pausados, desconcertados e acelerados, ainda sim tinham ritmos próprios, eram harmônicos, selvagens, delicados, rudes... maravilhosos! Eu sentia o peso do corpo de Ana sobre minhas pernas, sobre meu objeto de dominação, sobre meu peito. A pressão de sua boca me fazia suspirar de desejo e me arrepiava todo de sentir sua respiração roçar junto a meu rosto. Suas mordidas em meu pescoço misturada à delicadeza com que se mexia eram extremamente fascinantes. Ela dançava sua melhor música em cima de mim. Eu era seu instrumento de uso. Ao mesmo tempo em que eu a possuía, era possuído também e só mais tarde pude perceber que eu fora mais dominado que pudesse pensar. Dentro de meu egocentrismo não enxergava o quanto eu estava apaixonado. O quão rendido estava, não só pelo encanto de Ana, mas pelo amor sem limite que eu pensava existir. Ela era minha e não podia nem sonhar com a hipótese de vê-la longe de mim.
Ana era dançarina e atriz. Adorava o que fazia e sentia-se realizada nos palcos. Eu também achava um máximo o trabalho dela, no começo. Com o passar dos dias, dos meses, estava tão envolvido, tão viciado nela que já não podia separar a mulher profissional, da mulher esposa. Queria exclusividade. Esperava retorno constante. A liberdade que tanto me fascinava se existisse em Alice, agora era repúdio em Ana. Não suportava vê-la saindo para se exibir para outras pessoas. Era seu trabalho, mas eu não controlava meu ciúme violento. Nunca encostei um só dedo em Ana, e nunca o faria, a não ser o encostar do prazer, do carinho, do amor. Jamais faria mal a Ana. Mesmo que traído fosse. Mas não teria coragem de maltratar quem me dera tanta emoção, tanto júbilo, tanta alegria.
Eu, engenheiro de uma firma de São Paulo. Mal tinha tempo para mim e de repente tudo muda de lugar. Minha profissão torna-se banal perto do que sinto por aquela mulher. Ela se tornou em pouco tempo meu bem e meu maior mal, meu início e meu fim.
Fruto de um tesão incontrolável, de um desejo insaciável, nasce Antônio que é elo, que é ímã, que é ponte que nos distancia. Antônio é doce. Não tem culpa de nada, inocente não sabe o que fez. Mas ele é marco inicial de nosso elo eterno e de nosso ponto final. Estou atordoado pela idéia de ser pai, pelo sonho de estar com Ana, pelo desprazer em dividi-la, pelo temor de perdê-la. Eu não sabia, mas naquele instante o cronômetro fora disparado e em contagem regressiva estava perdendo Ana. Eu não conseguia engolir mais o trabalho dela há tempos, ainda mais por ela trabalhar com meu melhor amigo, Fred. A intimidade que ela estabelecera com ele se tornava mais e mais forte a cada dia. E ainda tinha que conviver com aquela insegurança de tê-lo em casa, pois era padrinho de Antônio. Gostava imensamente dele e ele de seu afilhado. Na verdade, ele era mais pai que padrinho. Sentia um prazer imensurável ao estar com o menino, e eu me torturava cada vez que via aquelas cenas de carinho, de envolvimento. Os dois pareciam estar ligados por um eixo comum: Ana... a minha Ana.
Talvez já não fosse “a minha” há séculos, mas eu sempre me cegava com relação a isso. No entanto chegou num ponto em que eu não separava mais onde eu começava e onde tinha fim sem Ana. Não existia a possibilidade de viver sem sua presença. Estava bêbado, completamente inebriado. Não enxergava nem Antônio. Só a minha deusa e sua relação profissional com Fred. E aquela outra relação paternal de Fred com Antônio.
Estava confuso, perturbado. Qualquer homem ficaria ao ver tanta cumplicidade escancarada. Tudo me fazia crer que éramos um triângulo. O que se complicava pela existência de Antônio. Dúvidas, apesar de nunca ter tido motivos concretos. Eu estava com ciúmes do meu pensamento. Escravo da minha mente fantasiosa, fruto de um amor doentio. Minha doença era Ana. Era seu olhar e seu corpo. Não tinha cura.
“Já não tenho motivos para continuar sendo alvo de suas suspeitas sem escrúpulos.
Suas acusações me fazem mal. Estou definhando a cada dia com este seu ciúme maldito e não consigo mais viver sufocada. Desconfiança é a palavra que resume e que acaba com nosso romance. Você foi o melhor capítulo da minha história. Amei como nunca havia amado ninguém. Você me ensinou a ser sincera, a ser companheira, a ser sua. E eu fui. Sinto imensamente por tudo o que poderíamos juntos, ainda ter vivido. Mas assim não dá. Eu não tenho forças. Você me tirou de mim e agora preciso me reencontrar. Não sei se conseguirei obter êxito, não sei como vai ser minha vida sem seu abraço, sem seu rosto, sem suas flores, sem seu cheiro, sem o seu gosto. Não sei como vou viver sem nosso desejo incontrolável, sem nossa imensa vontade. De minha parte digo que continuarei apaixonada, eternamente. Mas tenho certeza que se ao seu lado continuar... e com você, assim, tão diferente de quando nos reencontramos... Eu morrerei. Não aprendi a conviver com o novo Dom que você construiu.
Você, Dom, destruiu tudo que havia de melhor entre nós. Agora não me resta outra alternativa. Deixo-lhe. Amargando de desgosto, mas assim será melhor para ambos e para nosso filho, Antônio.
Eu te amo,
ANA
Choro por não ter feito nada. Eu não podia. Nada podia ter sido feito. Meu carro já estava há alguns metros, mas não pude evitar. Choro de desespero. Luz, freios, o choque.
Meu passado se foi. Minha vida acabou naquele instante. Mas ele não quis me poupar do sofrimento. Deixou de presente a dúvida e a dor de conviver com ela. A medida que Antônio cresce, minha angústia aumenta. Não tenho como me livrar do sentimento de culpa.
O que me fez deixar Alice, me uniu e me separou de Ana. Hoje entendo porque Alice agia daquela forma e sofro por não ter agido diferente com Ana. Minha doença a levou para todo sempre.
Queria o amor de Ana novamente. Hoje sou culpa. Sou ressentimento.
Vivo dos restos de Ana. Cuido de Antônio.
Hoje? Não sou mais eu.
Inverno de algum tempo
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