sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Pratos limpos

Onze da manhã. Meus olhos maus se abrem frente ao espelho que reflete minha cara de sono. Sinto-me ainda zonzo e franzindo um pouco a testa consigo me ver devagar. Depois de ter visitado a pia, ponho-me a espiar pela janela da cozinha como sempre faço todas as manhãs ou quase tardes. Hoje o sol não nasceu para o dia. Meio uma dor cortante no peito, tenho vontade de ouvir música boa enquanto preparo o almoço. Afinal de contas, não é à toa que fico em casa nesse horário. Tem gente que precisa de mim aqui, que precisa de cuidados. Logo tenho uma pequena lembrança de algo parecido com “poetas para quê...” e fico no embalo de Bethânia, sol perfeito para essas quase tardes. É um dia depois de quarta e que ainda é cinza.
Quero fazer feijão que lembre aquele que ficou congelado por dias, porque minha mãe quem o fez e não queria que acabasse. E um arroz que lembre meu pai, soltinho e colorido. Ele gosta. Estou animado mesmo frente a indecisão do tempo insistindo fazer doer o que pulsa aqui dentro. Saudade dos tempos em que eu não precisava cozinhar, tudo vinha nas mãos. Já não é mais assim. Meu bem e minhas preciosidades estão chegando e preciso ser rápido.
Feijão no fogo, arroz quase pronto, passo aos vegetais. É bom ter variedades de verduras. São só sorrisos quando a comida está alegre, toda cheia de cor. E eu sinto que fiz minha parte. Eu escolhi ficar em casa e cozinhar. Assim sou mais útil. Nem sempre as pessoas entendem. Dizem que não posso ficar assim. Mas eu gosto de fazer e dizem que cozinho bem. Está quase pronto. Ouço mais uma faixa do cd. Alto, que é pra preencher toda a cozinha. “Hoje eu acordei o dia antes dele te acordar...” é o que ela canta pra mim. Um replay e canto de novo no meu jeito desafinado e rouco de cantar.
A saudade me faz deixar um minuto a cozinha e visito minh’alma a chorar. Está tudo tão escuro e pálido e frio e nublado e... e. Lágrimas perto do espelho, retorno. Lá vi um cara de olhos abertos vermelhecidos de sal. Como doeu. O cara era eu. A comida fica pronta e é aí então, depois que as panelas deixam seus barulhos e o rádio emudece, é aí que dou por mim.
Ali acordo de fato. Quanta comida feita. Quanto vazio na mesa. Entendo agora a dor que rolava e o silêncio que em mim estava. Ela, elas, ele, eles, ninguém há. No espelho vi quem é que precisava de mim, de quem é que eu precisava cuidar e para quem eu me alegrava em cozinhar cantarolando alto: para o meu bem. Estranho foi ver que acordo só horas depois, que percebo tudo tarde demais. O feijão, o arroz e tudo mais... quanta coisa.
Sem preciosidades, tarde acima, de novo retorno à cama, com meu grande vazio dentro e comida no fogão. Ligo o som. Agora sei de verdade o que tanto me dói. Aumento de novo a música que invade e alimenta esse meu abismo de poeira, cacos e solidão.

p.s. Eu devia ter suspeitado: “hoje o sol não quis o dia” e nem eu acordar.
Manhã sem sol.

3 comentários:

  1. Meu querido parabéns, show de bola... te reverencio...

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  2. É, coisas sem porquê às vezes nos ocupam muito tempo... Mas são necessárias pra aprendermos, pelo menos um pouco mais de nós! E, vc tbm cuida de mim... muitas vezes provei o tempero da sua amizade no seu arroz e no seu feijão! E são mesmo uma delícia!!!! rs...

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  3. fala meu velho
    gostei muito deste, muito forte, bonito...
    abração saudoso
    do amigo
    PEDRO

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